Anthony Lister – “Slither Between the Blinds Shows Our Fears”

Anthony Lister – “Slither Between the Blinds Shows Our Fears” – Exposição Individual –  16 de Junho a 15 de Julho de 2017 – Underdogs10, Lisboa

            Anthony Lister chega, pela primeira vez, à cidade de Lisboa, com uma exposição individual. Incorporada na Galeria Underdogs, a exposição “Slither Between the Blinds Shows Our Fears” mostra o mais recente trabalho de pintura e escultura de um dos mais proeminentes street artists do mundo.
            Natural de Brisbane, Austrália, o “adventurer painter”, Anthony Lister, satisfaz em solo português, o seu desejo de fazer exposição que estará patente ao público de 16 de Junho a 15 de Julho na Galeria Underdogs, provando, de forma inequívoca, que o grafitti pode ser apreendido como a fronteira final da verdadeira integridade artística e não como uma coisa marginal, selvagem e suja.
            Lister padece, de acordo com o próprio, daquilo que se chama por “grafitti diesease”, uma doença que “sofre” desde o final da década de 1990, quando começou a fazer de Sydney a sua tela. Esta perturbação levou-o, primeiro, a estudar nas Belas-Artes de Queensland e, em seguida, em 2003, a mudar-se para Nova Iorque para trabalhar com Max Gimblett, o seu mentor. Todavia, a “enfermidade” de Lister acabou por se tornar favorável já que o artista teve a oportunidade de mostrar o seu trabalho em galerias de arte de Milão, Los Angeles, Londres e Nova Iorque. Não obstante a aceitação do seu ofício no mundo da arte, em particular pelas galerias, o artista nunca parou de trabalhar na rua e prometeu, antes de sair de Portugal, deixar um desenho seu nas ruas de Lisboa.
            O percurso de Lister manifesta-se através de um choque entre a “low and high culture”. Com feito, Lister, tanto dentro como fora das galerias de arte, habituou-nos [estranhamente] a desenhos de super-heróis e bailarinas/strippers com um tratamento plástico considerado fora do normal para um “artista de rua”.
            Lister afirma que a sua arte geralmente funciona como um espelho que se coloca em frente da sociedade, daí estar muitas vezes na rua, isto é, mais acessível. Porém, esta “provocação”, não deve ser entendida como uma ferramenta de introspeção através da qual se rumina na sua própria identidade e herança. Contudo, é exactamente o contrário que acontece na exposição “Slither Between the Blinds Shows Our Fears”. A mais recente exposição de Anthony Lister emerge de um lugar mais especial e pessoal.  É composta por 4 telas de 3 metros que ocupam as paredes laterais da galeria; 14 telas de pequenas dimensões; uma escultura feita dois dias antes da inauguração que não aparece no folheto da exposição e, logo à entrada, um piano que serve de mote à exposição. Esta peça, intitulada “Grand Didjeridon’t” embora se assemelhe aos pianos clássicos europeus, está pintada como um instrumento aborígene chamado “Didgeridoo” demonstrando claramente que, mesmo que o espelho esteja virado para o artista, a dualidade entre “low and high art” persiste. Porém, este não é o motivo principal da instalação. O piano clássico aborígene é feito de contraplacado, acrílico e argila, sendo, por isso, um falso testemunho.
Anthony Lister conta que durante a sua infância o pai dizia-lhe frequentemente que tinha um tio aborígene. Com efeito, Lister cresceu até à adolescência, a abraçar a herança cultural aborígene. Contudo, mais tarde, foi alvo de troça do pai por ter acreditado na história. Viveu anos envergonhado com o este acontecimento, e só agora, com “Slither Between the Blinds Shows Our Fears” teve coragem de expor as suas inseguranças, os seus demónios e acima de tudo desnudar o impacto que esta mentira teve na sua vida e na sua personalidade.
Uma das peças que evidência de forma mais vincada a sensação de estar desencaminhado é uma das telas de 3 metros intitulada “Scrambled Self-portrait”. Com a cara tapada de riscos, Lister está a pintar uma tela numa sala com esculturas (uma delas extremamente parecida à que está na galeria) e baldes de tinta espalhados pelo chão (o espaço é a garagem disfarçada de estúdio em Leichhardt onde o artista costuma pintar a maior parte das suas telas). Na tela, Lister pinta uma outra obra que não está em exibição, “Have You Seen The Listers?” e que serve de título ao documentário sobre a vida do próprio que se encontra neste momento em fase de pós-produção. A figura desamparada de Lister, virada para a tela, segura, na mão direita um pincel e na esquerda, um capacete do filme “300”. A iconografia pop sempre fez parte do repertório da obra do artista, contudo, em “Slither Between the Blinds Shows Our Fears” torna-se uma necessidade ateística perante o vazio hereditário e pessoal. Neste caso particular, o capacete é uma meta-referência, aludindo ao modo como os espartanos lutaram pela liberdade da Grécia contra a invasão persa. O filme, a banda desenhada “300” e as cores ousadas da palete Anthony Lister tornam-se assim numa bandeira pela luta de espaço na galeria de arte; pela liberdade do discurso visual da sua arte; pelo graffiti.
Reparamos, com alguma curiosidade, no quadro “Scrambled Self-portrait” envolto numa pequena moldura que parece conter uma fotografia de família. A fábula do pai parece rastejar, inadvertidamente, para o seu trabalho, levando o artista a explorar temas como a “identidade, cultura, mitologia, herança, parentalidade e estereótipos”. Assuntos que nos levam ao outro lado da sala, à figura aborígene desamparada confinada à iconografia pop da tela a óleo, tinta de spray, carvão e acrílico “Big Issues”,
Voltando ao quadro “Scrambled Self-portrait” podemos observar, para além da tela de três metros, 9 pequenas telas, inequivocamente vívidas e ao mesmo tempo abstractas, penduradas na parede do estúdio do artista e iguais às que estão em exibição na galeria. Reconhecemos “Not Zap Monster Painting”, uma referência à banda desenhada de Robert Crumb “Zap Comix”; um retrato do Will Smith (actor da série de culto “Fresh Prince of Bel Air”) “Not Grandma’s Painting of Will Smith (at’s a beautiful man)”, uma das suas icónicas bailarinas numa pequena tela com o nome “Lister Ballerina”; uma litografia de Picasso “Not Picasso Lithograph (made in 1967)” e ainda, em tom  claramente provocatório, a peça “Not Black le Rat Stencil of Banksy on Cardboard Titled (It’s just a joke)”. A piada está no facto de Lister ser conhecido pela empresa como o “Banksy de Brisbane”, ainda que, de acordo com o próprio, a única coisa que tenham em comum é o facto de ambos gostarem de pintar na rua. O tom humorístico dos títulos das obras como “Not ACDC Poster”, “Not Neckface Mask for Rambo”, “Not Failed Videogame Token (coin)” e “Grand Didjeridon’t” revela uma mudança de atitude do artista em relação ao assunto que tanto o perturbava. Ao deixar de se sentir envergonhado, a única coisa que pode fazer é rir de si próprio e do seu trabalho.
Com base na sensação de ter vivido na “margem errada” e nas memórias que guardou, “Slither Between the Blinds Shows Our Fears” vê Anthony Lister a conceber uma contra reacção a um dilema pessoal através de um conjunto inteiramente novo de obras composto por iconografias familiares da mitologia contemporânea das quais Lister se apropria, tornando-as referências simbólicas da sua própria vida.
“Slither Between the Blinds Shows Our Fears” é um retrato intimo de recuperação de identidade e propósito num mundo marcado pela ficção.

Nikias Skapinakis – Paisagens Ocultas

Nikias Skapinakis – Paisagens Ocultas – Pintura 2014/2016 – 9 de Novembro a 17 de Dezembro de 2016 - Teatro da Politécnica, Lisboa

Com mais de 60 anos a exercer o ofício de pintor, um dos mais importantes nomes da arte portuguesa da segunda metade do século XX, Nikias Skapinakis, apresenta-nos, no Teatro da Politécnica, em Lisboa, a sua mais recente série de pintura intitulada “Paisagens Ocultas” realizada entre os anos de 2014 a 2016. A esta última série, antecede uma outra   batizada por “Lago de Cobre” de 2015.
Nikias Skapinakis, admite sofrer de uma teimosa feliz. Com mais de 80 anos de idade, o artista português de ascendência grega, insiste em não encurralar a sua obra artística quer em géneros quer em linguagens. Visando acima de tudo não se aborrecer consigo próprio com delimitações artísticas vindas de um campo (o teórico), que não faz parte do seu gesto, Nikias “heterónimiza-se” através da pintura, continuando assim, a oferecer ao público português agradáveis surpresas.
As “Paisagens Ocultas” são pequenas peças de óleos e guaches, organizadas em várias séries, em paredes taciturnas. São obras cujo o espaço não aprisiona, não tendo fim nem princípio. A cor, ferramenta fundamental do pintor, lisa e sem relevo, aplicada com sucessivas camadas silenciosas nunca é idêntica, apresenta tonalidades diferentes e não deixa espaços vazios. A sua aplicação faz lembrar a da banda desenhada, da qual Nikias admite ser fã desde criança (especialmente de “Tintim”). Esta afiliação com o grafismo minimal, é um encontro “ao de leve” com a Pop Art, e serve apenas para a sua expressão mais cartazista. De notar que o design também é uma das linguagens de Nikias Skapinakis. Dentro desta expressão cartazista, surge, para além da cor, uma linha, uma linha negra, inteligível de várias espessuras que golpeia a cor. Este golpe [na cor] materializa-se em sete planos.  Segundo o artista plástico, o número sete não tem nenhuma leitura mística ou cabalística, tratando antes (e apenas) de uma divisão abstratizante, que permite a expressividade adequada ao cromatismo do quadro. É através da reunião destes dois elementos que as paisagens desabrocham.
A cor, na obra de Nikias, é dotada de fala, e é no diálogo omnipresente e eventualmente exigente com a linha que as paisagens emergem. Porém, estas paisagens manifestam-se de forma oculta, naquilo a que o artista apelida de “tendência parafigurativa”. Ou seja, existe, na composição abstrata da obra, uma paisagem “invisível, mas manifesta” que por sua vez, impede o próprio quadro de se comportar como uma peça não-figurativa. Estaremos perante o Limbo entre a figuração e abstração?
Embora a obra de Nikias Skapinakis seja extremamente diversificada e, à primeira vista, independente, os seus novos quadros ajudam a entender o seu passado e vice-versa. Na década de 60, o artista, começou a desenvolver uma série que corresponde aos primórdios da “parafiguração” que hoje conhecemos de forma mais nítida através das “Paisagens Ocultas”. Muitas dessas peças, igualmente sem título, caracterizavam objetos, recortados por um fundo branco. Esta tendência, embora abstrata, acabou por funcionar como uma disciplina estruturante na medida em que libertou a representação do seu referente. No caso das “Paisagens Ocultas”, o referente está ausente e, portanto, irreconhecível. O objetivo não é reproduzir o visível.
Após esta fase preliminar da “parafiguração” o artista distancia-se gradualmente desta tendência. Todavia, mais tarde, nomeadamente, de 1979 a 1997, retoma-a na série conhecida pela designação de “Paisagens do Vale dos Reis”.  Nesta série existe uma memória geológica e topográfica confirmada pela escolha de cores que evocam o terreno árido e avermelhado do Egipto. Porém, os referentes evocados são abstracionados. A diferença entre a série “Paisagens do Vale dos Reis” e a série “Paisagens Ocultas” é que neste último não existe referente, sendo as obras fruto do silêncio e da criatividade do artista. Aqui estamos em contacto com o ausente. Importa fazer notar que Nikias nunca foi um pintor puramente abstrato, uma vez que, através da manipulação da cor sempre aludiu ao real. Na realidade, e mais recentemente, conseguimos retirar fragmentos “parafigurativos” da sua penúltima série “Quartos Imaginários” datados de 2001 a 2013. Se isolarmos alguns horizontes, surgem varandas e janelas representadas de forma abstrata numa clara contradição do sentido paisagístico original e da figuração dos referentes imaginados do quarto. É exatamente este o jogo inerente das “Paisagens Ocultas” de Skapinakis, a dictioma entre o real e o irreal, entre a figuração e a abstração. Estes pormenores estão bem patentes nas peças, “A Varanda de Picasso na Côte D’azur”, “A Paisagem Sonhada de William Blake” e ainda no “Quarto Vazio de Edward Hopper”.
Uma vez que nas “Paisagens Ocultas” não existem referentes, a “paisagem” só toma corpo ao sabor do gesto “frio e impessoal” do pintor e por invocação (sugerido no titulo e na leitura proporcionada entre a linha e a cor).  A obra liberta-se da figuração, e sem signos, (re)encontra-se em si própria. Abre um universo e mantém-no lá. Imóvel. Institui um mundo sereno e produz um só caminho. A questão que nos inquieta é saber se este caminho nos conduzirá à Arte Pura?
Numa era em que todas as paisagens estão acessíveis (e /ou impostas) ao nosso olhar, através dos livros, dos mass media, dos computadores e dos telemóveis, Nikias Skapinakis, num evidente tom provocatório, reúne na sua série, tudo o que a nossa existência contemporânea “obriga” a colocar em segundo plano, ou seja, o subconsciente, obrigando-nos a uma introspeção mais incisiva sobre a realidade que nos rodeia e sobre nós mesmos. No entender do pintor é exatamente através deste “trabalho” feito com o (nosso)inconsciente que a produção artística refletirá o consciente. Neste sentido, as “Paisagens Ocultas” funcionam como refúgio, entendido aqui não como um abrigo de tempestades, mas sim de signos. Entre a realidade e a irrealidade fica a evidência de que a alma do homem, ao contrário da dos animais, não é feita de uma só “selfscape”.
Nas “Paisagens Ocultas” respira-se poesia. Um lirismo evidenciado pelo trato sincero (crú) da cor. Todavia, estamos perante “poemas” sem enredo, sem batalhas, sem paixões, sem homens e mulheres, sem terra nem céu. São paisagens de ausência que desfazem signos e linguagem, e que apesar de serem lugares ocultos, são (re)conhecidos por todos nós. Por vezes, muitas vezes até, vagueamos por entre elas, mudos, perplexos. Atentos também, procurando distinguir/ apreender o seu significado. Porém, e na maior parte das vezes, somos confrontados por um “nada”, isto é, por tudo o que origina o simples ato de criação. Neste momento, podemos então admitir que é neste interior (ausente, mas encerrando todas as possibilidades) onde tudo nasce.

“What any true paiting touches is an absence – an absence of which without the paiting, we might be unware. And that would be our loss.”.
John Berger

João Gouveia
Com tecnologia do Blogger.

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