Nikias Skapinakis – Paisagens Ocultas
Nikias Skapinakis – Paisagens Ocultas – Pintura 2014/2016 – 9 de Novembro a 17 de Dezembro de 2016 - Teatro da Politécnica, LisboaCom mais de 60 anos a exercer o ofício de pintor, um dos mais importantes nomes da arte portuguesa da segunda metade do século XX, Nikias Skapinakis, apresenta-nos, no Teatro da Politécnica, em Lisboa, a sua mais recente série de pintura intitulada “Paisagens Ocultas” realizada entre os anos de 2014 a 2016. A esta última série, antecede uma outra batizada por “Lago de Cobre” de 2015.
Nikias Skapinakis, admite sofrer de uma teimosa feliz. Com mais de 80 anos de idade, o artista português de ascendência grega, insiste em não encurralar a sua obra artística quer em géneros quer em linguagens. Visando acima de tudo não se aborrecer consigo próprio com delimitações artísticas vindas de um campo (o teórico), que não faz parte do seu gesto, Nikias “heterónimiza-se” através da pintura, continuando assim, a oferecer ao público português agradáveis surpresas.
As “Paisagens Ocultas” são pequenas peças de óleos e guaches, organizadas em várias séries, em paredes taciturnas. São obras cujo o espaço não aprisiona, não tendo fim nem princípio. A cor, ferramenta fundamental do pintor, lisa e sem relevo, aplicada com sucessivas camadas silenciosas nunca é idêntica, apresenta tonalidades diferentes e não deixa espaços vazios. A sua aplicação faz lembrar a da banda desenhada, da qual Nikias admite ser fã desde criança (especialmente de “Tintim”). Esta afiliação com o grafismo minimal, é um encontro “ao de leve” com a Pop Art, e serve apenas para a sua expressão mais cartazista. De notar que o design também é uma das linguagens de Nikias Skapinakis. Dentro desta expressão cartazista, surge, para além da cor, uma linha, uma linha negra, inteligível de várias espessuras que golpeia a cor. Este golpe [na cor] materializa-se em sete planos. Segundo o artista plástico, o número sete não tem nenhuma leitura mística ou cabalística, tratando antes (e apenas) de uma divisão abstratizante, que permite a expressividade adequada ao cromatismo do quadro. É através da reunião destes dois elementos que as paisagens desabrocham.
A cor, na obra de Nikias, é dotada de fala, e é no diálogo omnipresente e eventualmente exigente com a linha que as paisagens emergem. Porém, estas paisagens manifestam-se de forma oculta, naquilo a que o artista apelida de “tendência parafigurativa”. Ou seja, existe, na composição abstrata da obra, uma paisagem “invisível, mas manifesta” que por sua vez, impede o próprio quadro de se comportar como uma peça não-figurativa. Estaremos perante o Limbo entre a figuração e abstração?
Embora a obra de Nikias Skapinakis seja extremamente diversificada e, à primeira vista, independente, os seus novos quadros ajudam a entender o seu passado e vice-versa. Na década de 60, o artista, começou a desenvolver uma série que corresponde aos primórdios da “parafiguração” que hoje conhecemos de forma mais nítida através das “Paisagens Ocultas”. Muitas dessas peças, igualmente sem título, caracterizavam objetos, recortados por um fundo branco. Esta tendência, embora abstrata, acabou por funcionar como uma disciplina estruturante na medida em que libertou a representação do seu referente. No caso das “Paisagens Ocultas”, o referente está ausente e, portanto, irreconhecível. O objetivo não é reproduzir o visível.
Após esta fase preliminar da “parafiguração” o artista distancia-se gradualmente desta tendência. Todavia, mais tarde, nomeadamente, de 1979 a 1997, retoma-a na série conhecida pela designação de “Paisagens do Vale dos Reis”. Nesta série existe uma memória geológica e topográfica confirmada pela escolha de cores que evocam o terreno árido e avermelhado do Egipto. Porém, os referentes evocados são abstracionados. A diferença entre a série “Paisagens do Vale dos Reis” e a série “Paisagens Ocultas” é que neste último não existe referente, sendo as obras fruto do silêncio e da criatividade do artista. Aqui estamos em contacto com o ausente. Importa fazer notar que Nikias nunca foi um pintor puramente abstrato, uma vez que, através da manipulação da cor sempre aludiu ao real. Na realidade, e mais recentemente, conseguimos retirar fragmentos “parafigurativos” da sua penúltima série “Quartos Imaginários” datados de 2001 a 2013. Se isolarmos alguns horizontes, surgem varandas e janelas representadas de forma abstrata numa clara contradição do sentido paisagístico original e da figuração dos referentes imaginados do quarto. É exatamente este o jogo inerente das “Paisagens Ocultas” de Skapinakis, a dictioma entre o real e o irreal, entre a figuração e a abstração. Estes pormenores estão bem patentes nas peças, “A Varanda de Picasso na Côte D’azur”, “A Paisagem Sonhada de William Blake” e ainda no “Quarto Vazio de Edward Hopper”.
Uma vez que nas “Paisagens Ocultas” não existem referentes, a “paisagem” só toma corpo ao sabor do gesto “frio e impessoal” do pintor e por invocação (sugerido no titulo e na leitura proporcionada entre a linha e a cor). A obra liberta-se da figuração, e sem signos, (re)encontra-se em si própria. Abre um universo e mantém-no lá. Imóvel. Institui um mundo sereno e produz um só caminho. A questão que nos inquieta é saber se este caminho nos conduzirá à Arte Pura?
Numa era em que todas as paisagens estão acessíveis (e /ou impostas) ao nosso olhar, através dos livros, dos mass media, dos computadores e dos telemóveis, Nikias Skapinakis, num evidente tom provocatório, reúne na sua série, tudo o que a nossa existência contemporânea “obriga” a colocar em segundo plano, ou seja, o subconsciente, obrigando-nos a uma introspeção mais incisiva sobre a realidade que nos rodeia e sobre nós mesmos. No entender do pintor é exatamente através deste “trabalho” feito com o (nosso)inconsciente que a produção artística refletirá o consciente. Neste sentido, as “Paisagens Ocultas” funcionam como refúgio, entendido aqui não como um abrigo de tempestades, mas sim de signos. Entre a realidade e a irrealidade fica a evidência de que a alma do homem, ao contrário da dos animais, não é feita de uma só “selfscape”.
Nas “Paisagens Ocultas” respira-se poesia. Um lirismo evidenciado pelo trato sincero (crú) da cor. Todavia, estamos perante “poemas” sem enredo, sem batalhas, sem paixões, sem homens e mulheres, sem terra nem céu. São paisagens de ausência que desfazem signos e linguagem, e que apesar de serem lugares ocultos, são (re)conhecidos por todos nós. Por vezes, muitas vezes até, vagueamos por entre elas, mudos, perplexos. Atentos também, procurando distinguir/ apreender o seu significado. Porém, e na maior parte das vezes, somos confrontados por um “nada”, isto é, por tudo o que origina o simples ato de criação. Neste momento, podemos então admitir que é neste interior (ausente, mas encerrando todas as possibilidades) onde tudo nasce.
“What any true paiting touches is an absence – an absence of which without the paiting, we might be unware. And that would be our loss.”.
John Berger
João Gouveia
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